Prestes a completar 83 anos de idade e 58 anos de consecutivos mandatos,
como deputado, governador, presidente da República ou senador, o ex-presidente
do Senado José Sarney (PMDB-AP) diz estar se preparando para sair de cena. Em
breve vai tirar uma licença de 120 dias no mandato de senador. Em entrevista ao
GLOBO, o senador afirma, a despeito de constantes especulações a respeito, que
sua idade não lhe permite mais participar de uma campanha eleitoral, já que
considera não ter condições para “subir em trio elétrico”, nem cumprir um
mandato de oito anos. A próxima campanha em que irá atuar será no âmbito da
vida literária, para eleger o também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso a
uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL).
O senador considera que a presidente Dilma Rousseff
está realizando um “excelente governo” e defende sua reeleição. Em relação ao
potencial oponente do PT em 2014, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos
(PSB), Sarney defende que “não está na hora” de tentar ser presidente. Afirma
que sua participação nas campanhas de 2014 deve ficar mais na parte da torcida
e das articulações internas do que na presença efetiva em palanques.
— Não desejo mais concorrer à reeleição. Acho que a
minha idade não me permite participar de uma campanha eleitoral e cumprir um
mandato de oito anos. O criador tem suas limitações em relação a todos nós. Eu
terminaria meu futuro mandato com 93 anos, o que seria impossível. Eu não sou
tão exigente com ele, já fez tanta coisa por mim que não permite que eu queira
que ele abra uma exceção. Apoiei Lula, estou apoiando a presidente Dilma e
farei tudo para ajudá-la naquilo que for do meu alcance. Mas, não quero ter
mais nenhum protagonismo político. Velho já é difícil subir em palanque, já não
tem condições de subir em trio elétrico. Eu tenho passado, não tenho mais
futuro — diz o senador.
Após uma vida de atuação política ininterrupta,
Sarney afirma que, se pudesse escolher, seus filhos não teriam entrado na
política, que hoje considera uma “guerra de extermínio”. Em relação à filha
Roseana Sarney (PMDB), governadora do Maranhão, ele diz que fará o que puder
para ajudá-la em 2014 — sem subir em palanque —, mas que ela não precisa do pai
e “caminha com as próprias pernas”.
— Se eu tivesse que escolher, eu não desejaria que
eles (filhos) tivessem entrado na política. A política exige muito das pessoas,
ela é muito cruel com cada um de nós. Transformaram a política numa guerra de
extermínio. Todos os instrumentos são usados. Eu sempre achei que política é
arte de harmonizar conflitos, sempre tive a visão das duas margens do rio. E a
política, cada vez mais, se torna uma luta quase que desumana. Quando iniciei
na política ela não era assim. Hoje, é outro ambiente.
Em relação à próxima campanha em que irá
participar, para eleger Fernando Henrique como mais novo integrante da ABL,
Sarney declara abertamente seu voto e diz que há um clima favorável entre os
colegas imortais para sua eleição. Nega que as decisões na academia sejam
políticas e conta que, nos 34 anos em que a integra, nunca viu ser tratado
algum problema político. E nem que política tenha influenciado qualquer
decisão.
— Fernando Henrique é um escritor, um grande nome
do país, eu vou votar nele, incentivei que ele participasse da eleição e vai
ser uma grande contribuição para a ABL. Sinto um clima totalmente favorável à
eleição dele. Getúlio Vargas foi membro da academia, eu estou na academia, tem
uma tradição (de ex-presidentes)”.
Em relação a seu sucessor na presidência do Senado,
Renan Calheiros (PMDB-AL), Sarney evita críticas diretas, mas deixa
transparecer certo incômodo em relação às mudanças administrativas que está
promovendo:
— Eu encontrei o Senado no século XIX, e entreguei
no século da informação. Quando cheguei à presidência do Senado, se fazia ata escrita
à mão, estava atrasada seis meses e entreguei com todo o sistema hoje que nós
temos de divulgação da Casa, com tudo informatizado. Cada um imprime a sua
personalidade no momento. Quando eu largo um cargo, eu não olho para trás,
estou olhando o que faço para frente. O Renan é um homem muito experiente,
muito capaz, já foi presidente, conhece o Senado muito bem e está imprimindo
seu estilo. Eu, tendo sido presidente, serei o último a fazer qualquer
julgamento.
Sarney irá tirar licença de 120 dias para finalizar
a revisão do seu livro de memórias, que tem mais de 700 páginas, “sem
polêmicas”, segundo conta. O senador pretende reduzir o tamanho do livro e está
na fase que considera mais difícil, de cortar páginas. Mas, antes de se
licenciar, quer finalizar no Senado a votação das mudanças no Fundo de
Participação dos Estados (FPE), a discussão do ICMS e a dos royalties, que
considera estar mais na esfera jurídica do que congressual atualmente. Afirma
que, se sair antes disso, “ninguém perdoaria” que não estivesse presente para
defender o ponto de vista do estado.
Usando a faceta de escritor — que deverá prevalecer
nos próximos tempos, afirma —, o ex-presidente faz uma crítica à qualidade da
literatura brasileira atual. Diz que passa por um momento ruim e a compara ao
período anterior ao Modernismo. Hoje, não há bons romancistas no Brasil, diz. E
entende que isso tem a ver com o fato de o país não ter equacionado o problema
da educação, que é um dos maiores gargalos até hoje.
— Acho que estamos passando uma fase difícil da
literatura brasileira, realmente não é um bom momento. Na literatura
brasileira, como nas artes, não surgiu um grande romancista, um grande pintor,
um grande músico iconográfico como nós tínhamos. A humanidade vive de ciclos,
temos os tempos áureos e os tempos difíceis. Até a semana da arte moderna
(1922), também atravessamos um período ruim. Acho que o país tem alguns
gargalos. Sobretudo, acho que não equacionamos o problema da educação no país.
Isso faz parte da formação, também, de melhores romancistas.
Fonte: O Globo
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